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limbos verdes

limbos verdes

uma analogia e algumas ligações

 

 

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da consciência delas

as árvores. esses seres de vida, geradores de mais vida. chamam-na a si: vidas essas com diferentes formas -a de tantos animais - que nelas habitam, se alimentam, os musgos e fetos que crescem na sua sombra. alimentam-se da terra mas enriquecem-na de volta. seres que quando adultos, reconhecem e tratam - alimentam - as pequenas plantas que germinaram das suas sementes, mimando-as assim, mas não deixam de cuidar dxs filhxs da vizinhança.. tudo isto debaixo da terra. uma consciência que se desenvolveu com um sentido verdadeiramente comunitário. basta perceber como funciona uma árvore e como várias árvores comunicam/cooperam entre si. precisamos de fazer esta aprendizagem mais do que nunca - mancuso no livro revolução das plantas. 
têm surgido movimentos que referem a importância de nos abraçarmos às árvores, de falarmos com elas. muito honestamente, não sinto essa necessidade e não as sinto menos por isso.  quando me aproximo de uma sei que estou a ser percebido por ela, que as ondas daquela consciência vegetal captam a minha presença. tenho hoje a convicção profunda que elas percecionam, distinguem as diversas formas de vida que habitam o planeta. diria até que nos distinguem entre nós, percebem o que sentimos, as intenções que trazemos. foi esta consciência vegetal que preparou o mundo para nos receber. imaginam o que será estar no mesmo local durante centenas de anos, dia após dia, sentir da forma mais profunda a terra e os céus? por mais que tentem não conseguem. atrevo-me a dizer que elas sentem o que vem para lá do céu, o que vem do cosmos. talvez um dia, se não dermos conta de nós  mesmos pelo caminho, a ciência chegue  a conclusões semelhantes.


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uma analogia: os vínculos e os colos

há vários meses surgiu-me esta imagem. talvez ajude a perceber o que quero dizer. desenvolvemos um vínculo fortíssimo,  com quem cuida de nós, logo no início da nossa vida. acontece que entre o nascimento e o primeiro colo que recebemos da nossa mãe, já recebemos  o colo das árvores, porque já experimentamos respirar, já temos oxigénio em nós. e esse, considero, o primeiro colo de todos que recebemos.  pois a primeira coisa que fazemos mal nascemos é respirar, mesmo antes de sentir o colo da mãe, o bebé, na verdade, já está no colo das árvores.

 poderá haver, certamente, quem considere tudo isto forçado mas, esta imagem- este paralelismo - faz-me  muito sentido. 


assim como me faz sentido ver o tronco e os braços delas como uma generosidade cristalizada, que as árvores  têm em relação as formas de vida que permitem existir, com o seu desempenho. uma espécie de amor verdadeiramente maior. 

só sei que adoramos ver-nos como seres racionais, que somos, mas não tanto como gostaríamos, como nos imaginamos. falta também uma abordagem emocional, consciente, na forma como nos relacionamos com o mundo. as emoções de sobrevivência podem trazer o pior de nós mas as emoções mais elevadas - apreciação, gratidão, amor - com um propósito, trazem o melhor. há um mundo mágico - que existe efetivamente- e  que nos está a escapar e que pode ser vivido/experimentado.
por elas. por nós. 
somos um todo. é importante perceber isso.

 

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 quero concluir o post com algum otimismo e apelar a quem sente, quem percepciona o mundo de forma semelhante, que se manifeste, que exija mais. não ando ativo neste universo 'neteniano', neste momento, apenas aqui no blog, mas sempre que possível falo com as pessoas da aldeia sobre estas questões. e, apesar de tudo, noto algo a mudar, há sementes a germinar nalgumas mentes. 

-apreciem as árvores à vossa volta, celebrem-nas, falem delas aos vossos  amigos/família 

- saboreiem o movimento das folhas, o som que produzem, as cores, ou, simplesmente, a forma do tronco, a copa, o movimento dos galhos, como se lançam no céu graciosamente 

- sintam a presença delas com consciencia: mente e coração - é o segredo - um pouco de gratidão por elas, pelas vossas árvores  - é a melhor forma de falar com elas e sei do que falo.

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manter os pés enraizados na terra mas não tirar o olhar das estrelas. 

 

gosto de pensar algumas destas imagens possam ficar a ressoar nalguns de vocês. que poderá germinar também por aí alguma coisa.  como é evidente não vou mudar o mundo com este post. quem me conhece já terá alguma noção de como vejo as coisas.  mas fez-me sentido escreve-lo, falar de forma mais aberta destas  percepções, perplexidades, esperanças.

concluir - mesmo!! - o post voltando ao conceito 'da mistura ', esta ideia de nos encontrarmos com o outro, de ficarmos mais ricos desse encontro. de trazermos à superfície o melhor de nós e de nos contaminarmos com o melhor que cada um traz.  construir ao longo do tempo uma maior consciência individual e por isso, também,  coletiva, ancorada nas 'boas' emoções. parece me uma boa forma de se viver. contribuir para o todo, uma pacificação fértil do todo, não invasiva, não tóxica. é urgente. é importante. é o que vejo daqui. 

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algumas ligações com árvores, direta ou indiretamente

 

- the sea of trees  (filme)

- 'basta de tratar a natureza como casa de banho' (guterres cop26)

- the overstory (livro)

-  'tivemos sucesso em devastar o mundo, agora precisamos de uma sensibilidade  ecosofica' (michel maffesoli) 

- 'a natureza não está aí para nosso consumo'  (stefano mancuso)

 

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